”Você está maluco? Ser atleta?”

Essa era a pergunta que Willians Silva fazia para seus amigos atletas, hoje o número um na categoria peso pesado coleciona premiações.

escrita por: Cleyton Santana e Mariana Paula

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”Na verdade, eu nunca sonhei ou pensei em ser atleta”, afirmou o judoca Willians Araújo Silva, campeão duas vezes no German Open e medalhista de prata no Parapan-Americano em Guadalajara (2011) e Toronto (2015). O paraibano acreditava que sua mudança de vida viria a partir dos estudos: queria cursar direito ou geografia.

A vida acadêmica acabou ficando um pouco de lado, mas não totalmente. O faixa preta ainda pretende fazer uma faculdade, mas é projeto para o futuro. ”Eu penso em judô 24h. Quando estou concentrado com a Seleção Brasileira em São Paulo eu treino de domingo a domingo por dois períodos.”

No Instituto Benjamin Constant, ele praticou outras modalidades esportivas, como futebol e natação, mas no judô as coisas aconteceram naturalmente. Através do esporte, Willians conseguiu dar novo rumo não somente à sua vida mas também à de sua família: ”Consegui mudar a vida da minha mãe, do meu pai e dos meus irmãos. Tive a oportunidade de dar a eles um lugar melhor para morar.”

O judoca perdeu a visão aos dez anos em sua terra natal, na Paraíba,enquanto brincava com armas utilizadas para matar passarinhos. Ainda jovem, veio morar no Rio de Janeiro com a sua família no Complexo do Alemão, na Zona Norte. A vinda para o sudeste tinha como objetivo a busca por uma vida melhor, porém as condições eram precárias.

”Eu tinha muita vergonha da minha casa. Chovia e enchia tudo. Acordava e tinham ratos passando pelos meus pés”, disse.

Willians começou a praticar judô em 2008. Ainda assim, houve um período em que se ausentou, mas os técnicos não desistiram. ”Eles pediam pra eu voltar e quando retornei surgiu um patrocínio de 540 reais. Então pensei: se surgiu esse, posso conquistar um pouco mais.”

Segundo ele, foi a partir desse momento que sua vida de esportista começou a prosperar. O paraibano entrou para a Seleção Brasileira Paraolímpica de Judô e ainda quer muito mais. O seu maior objetivo é receber a medalha de ouro nas Paraolimpíadas do Rio, em 2016. Para isso, precisa manter o foco, como fez no último Mundial nos Estados Unidos, ficando com o bronze no individual e o ouro por equipes. Em 2012, Willians perdeu na semifinal devido a um machucado e acabou disputando o bronze. Desde então o judoca tem o ouro em 2016 como meta.

”Eu durmo, acordo e me movo todos os dias pensando nesse sonho. Então o que vai coroar mesmo é essa medalha no ano que vem. Ser campeão aqui no Rio de

Janeiro com a minha família, amigos, técnicos e pessoas que acreditam em mim e convivem comigo todos os dias.”

A ansiedade pré-competição é difícil de ser controlada. O esportista comentou que quando disputou seu primeiro campeonato chorava como criança, mas que de lá para cá tem controlado a emoção.

”É difícil lidar com essa ansiedade. Sou totalmente cego. Às vezes o meu adversário está do meu lado, eu posso ou não já ter lutado com ele. Não sei se ele é maior ou menor do que eu. Só tenho essa dimensão quando estou lá dentro, quando pego o quimono e sinto a pegada.”

Além disso, uma das exigências de seus técnicos é que mesmo sendo deficientes visuais, os atletas participem de campeonatos com pessoas que enxergam. Com alegria, o esportista afirmou que neste ano foi vice campeão estadual, em outubro, no Campeonato Convencional, em que ele era o único cego de sua categoria.

Como as conquistas só vêm quando há batalhas, o judoca tem uma rotina de treinos intensa. A primeira atividade do dia é o treino de musculação. Geralmente, esses treinos acontecem pela manhã. Há um tempo de descanso e durante a tarde acontecem os treinos no tatame. Para Willans, todo o esforço e dedicação valem a pena, pois nada se compara ao ato de subir ao pódio e receber uma medalha pelo seu país. Aos 24 anos, ele não pensa nos jogos Paraolímpicos futuros mas apenas no de 2016, que ele acredita que será o mais marcante de sua carreira.

“Analisando friamente, eu acho que ainda tenho uma carreira pela frente que dá pra eu chegar a outros Jogos Paraolímpicos, quem sabe Tóquio…Mas não penso nisso ainda.”, afirmou.

A capacidade de transformação que o esporte traz é sem dúvida um fator muito importante. Para o judoca, os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos são um canal de visibilidade de transformação, tanto em conduta quanto no respeito ao próximo. A força que esses jogos têm de gerar incentivo é grande, mas outro fator interessante é o de mudar pensamentos acerca da sociedade na qual habitamos.

Em vista dos Jogos em 2016, a Prefeitura do Rio de Janeiro anunciou este ano que um conjunto de iniciativas será tomado para melhorar a acessibilidade do deficiente físico. O projeto Rotas Acessíveis vai adaptar para pessoas com deficiência o percurso de dez dos principais pontos turísticos do Rio. O investimento de R$2 milhões vai realizar ainda obras de nivelamento de vias e calçadas; instalação de rampas e piso tátil; retiradas de interferências no passeio, como frades e bancos; e a readequação de vagas de estacionamento e pontos de ônibus.

Para o judoca todas as transformações pelas quais a cidade do Rio de Janeiro está passando são importantes para o desenvolvimento social e econômico do carioca.

Porém, o maior legado dos jogos para ele, “é conseguir mudar a forma de pensar e de ver o outro e perceber que os deficientes também são capazes”.

Para ele o esporte é fundamental para vida de qualquer pessoa, pois não melhora só a qualidade de vida como também renova o ser. Por isso, Willians quer incentivar pessoas de todas as idades, com deficiência ou não, a praticar esporte.

O judoca também sonha em ver as oportunidades de emprego surgirem para as pessoas com deficiência. Para ele é lamentável um empregador ainda recusar o funcionário por ele apresentar alguma diferença, seja ela física ou étnica. O mesmo que há um tempo não acreditava em si próprio, hoje acredita na capacidade de todos.

“Eu desejo que as pessoas respeitem as diferenças uns dos outros e que não tenham um olhar de pena quando forem ajudar uma pessoa com deficiência, ou que não destratem uma pessoa pela classe social a qual ela pertence, ou pela cor de sua pele. Enxergar que somos capazes e o que falta em nós é uma oportunidade para darmos o nosso melhor.” – afirmou Willians.

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